Revistar - Pe Rafael Vieira

Minhas impressões e vivências. Rafael Vieira, C.Ss.R.
  1. Na pele de uma Jihadista

    O domingo 17 de abril de 2016 foi considerado uma data "histórica" para o Brasil. Um processo de admissibilidade de impedimento da Presidente da República em continuar cumprindo um mandato legítimo foi votado por 511 deputados presentes numa sessão histriônica na Câmara Federal. Eu acompanhei tudo isso com um olho e o outro me serviu para devorar a emocionante aventura de uma jornalista francesa que se meteu a investigar o mundo dos jovens aliciados pelo Estado Islâmico e acabou se envolvendo com um terrorista que era membro da hierarquia da ocupação na Síria e no Iraque. Por razões de segurança, tirando os nomes dos terroristas citados, o dos outros personagens da história são todos fictícios, inclusive da autora do livro que prefere ser chamada de Anna Erelle. A minha experiência dominical bate bem com o que ela mesma diz no livro que jornalista é que nem cachorro: está sempre em busca de um osso para roer.

    Bilel

    A história é real, portanto. Começa como apenas mais uma investida da francesinha no chamado jihad 2.0 da propaganda fundamentalista islâmica. Ela cria um perfil falso no Facebook e se passa por uma quase adolescente, convertida, e muito interessada em conhecer tudo o que tem a ver com a jihad, isto é, a guerra santa dos radicais muçulmanos.  Bisbilhota bastante o tema até o dia em que é abordada por um combatente francês que se encontra na Síria: Bilel. O livro inteiro é o detalhamento desse contato. Bilel se interessa pela garota que a jornalista interpreta – com muitas dificuldades quando as coisas começam a se complicar – e chega a envolvê-la numa aventura maluca que tem por objetivo leva-la para a Síria como sua mulher. Ele é um emir, isto é, uma pessoa que ocupa cargo de confiança numa hierarquia islâmica que gosta de exibir armas, riqueza e tem um discurso duro da religião. Ele considera que o califado vai dominar o planeta e toda a humanidade vai viver segundo as leis da charia, leis fundamentadas não no direito, mas na religião e na opinião de líderes religiosos.

    Mélodie

    O nome da personagem inventada pela jornalista é Mélodie. O terrorista, na verdade, se apaixona por Mélodie. E esse fato transtorna a vida real da jornalista. Ela que é freelancer de dois jornais e tem um namorado fica completamente atordoada com o que vai descobrindo nas longas conversas no Skype com seu conterrâneo que fala bem o árabe. Ela se veste como muçulmana e diz que o faz escondido da irmã mais velha e da mãe. Personagens que também foram inventados por ela para se fazer convincente, sobretudo, para ajudá-la a sair das conversas quando os diálogos começam a se tornar muito difíceis. Ela sempre diz que a irmã chegou ou que a mãe está subindo as escadas e ela precisa desligar. Aos poucos, no entanto, ela vai descobrindo a personalidade monstruosa do sujeito que a enche de afagos. O que ela não contava é com a aflição que ele impõe sobre ela ao fazer perguntas desconcertantes e que ela não pode responder como uma adulta para não perder o fio da linha da personagem que criou.

    Síria em guerra

    A matéria é supervisionada por jornalistas com quem a autora vai trocando ideias no correr da investigação e o ápice da confusão se dá quando Bilel resolve por própria conta que ela é sua mulher e já providenciou os papéis para recebe-la na Síria em guerra. A jornalista procura se dedicar a personagem até o limite, quando briga com o terrorista e faz sumir sua personagem. Depois da publicação da reportagem, o nome de Bilel é confirmado como o braço direito de um dos terroristas mais perigosos do mundo: Abul Bakr al-Baghdadi. Entre suas lambanças, as notícias confirmam que ele participava de fuzilamentos em massa, decapitações, queima de pessoas vivas. A história mostra, finalmente, o poder do terrorismo digital. Uma realidade que parece distante para quem vive no Brasil. Pode ser até mesmo desproporcional, mas não consegui dissociar essa história do que se verifica nas redes sociais nos últimos meses: uma guerra absurda e fratricida. Uma linguagem de terror. O impeachment da presidente parece ter se tornado uma espécie de “libertação”, qualquer coisa longinguamente parecida com aquela dos jihadistas. Espero que depois que a presidente sair do Planalto, quem ocupar seu o lugar não deixe a população como Bilel deixou Mélodie: assustada, com medo e profundamente decepcionada.
    Rafael Vieira
    Aparecida, 18 de abril de 2016

  2. Elogio da Paixão

    “A vida vivida com o máximo de intensidade e paixão”, este enunciado foi o que mais me chamou a atenção para ver o espetáculo musical que está em cartaz, até 5 de junho, no teatro dos Correios no centro do da cidade do Rio de Janeiro. Chegamos atrasados porque o taxista, estranhamente, não sabia onde ficava a rua Visconde de Itaboraí. Na entrada do Centro Cultural, no entanto, uma bela surpresa: minha irmã e eu indagamos o guarda sobre o local onde se poderia adquirir os ingressos e ele nos presenteou. “Hoje nos deram ingressos para os funcionários dos Correios e muita gente não veio”. Agradecidos e sorridentes com a situação fomos para a porta do teatro com tempo de beber um café expresso, de fato, pouca gente estava lá para ver a peça. De todo modo, vimos e fiquei muito impressionado com tudo: a música, a interpretação do André Arteche e a série de aforismas de Nietzsche e de Vinicius de Moraes projetados no fundo do palco.

    Vinicius de Moares e Tom Jobim

    Apesar de ser chamado de “musical”, a peça tem mais acento na dramaturgia. Os dois protagonistas dividem o palco por mais de uma hora e meia com diálogos incríveis. Os palavrões estão na medida certa. Fico meio decepcionado quando o texto se derrama na repetição de palavrões desnecessários. Durante todo o espetáculo, mais de 10 músicas de Vinicius e Tom Jobim são mencionadas, algumas apenas com um verso. Outras são quase que declamadas.  A voz de Marina Palha deixa tudo tão leve, tão gostoso, tão transcendente. Ela, basicamente é a intérprete que dá suavidade ás letras ternas das canções. A voz parece um fio bem fino que vai costurando um tecido grosso e felpudo de modo que, no final, resulte num aconchegante edredon para envolver quem uma pessoa apaixonada. Acho que sei o que é isso. Já estive embrulhado nisso, algumas vezes em minha vida.

    Arthur Shopenhauer

    O filósofo escolhido para contrapor esses loucos e apaixonados, no entanto, foi Shopenhauer. Seu pensamento sobre o amor poderia, grosseiramente, ser traduzido como “uma perda de tempo”. A vida é curta para que alguém se ocupe com isso. Por outro lado, as máximas do “eterno retorno” de Nietzsche e as afirmações sobre paixão do Vinicius de Moraes embolam um contraponto que mais ou menos quer dizer que sem paixão, a vida não vale a pena. A peça conta a história de um velho ator doente e ensandecido pela paixão que encomenda uma peça a um jovem dramaturgo pessimista e cheio de indisposição. Um está morrendo e o outro precisa de trabalho. Os quadros vão se encaixando e nasce uma amizade incrível entrecortada pela presença de uma mulher suave. Os dois personagens se digladiam de forma inteligente. A peça torna-se uma delícia justamente pela qualidade do texto. E a leveza das canções fazem o espectador sonhar. Me vi cantarolando com os atores.

    Tímido afinado

    André Arteche é um daqueles atores misteriosos. Ele tem a mesma idade que a personagem que interpreta, isto é, “está perto dos 30 anos”. Nota-se, ao observar o seu rosto em cena, a seriedade na composição do personagem, principalmente porque divide o palco com um Adriano Garib enlouquecido pelo seu Charles apaixonado. Ele permanece na introspecção diante de um exuberante falastrão. Não me pareceu convincente nas poucas vezes que pareceu simular emoção, sobretudo porque recorreu ao gesto óbvio de passar a mão nos olhos para conter as lágrimas. Ele torna-se corretíssimo quando canta. Aparenta uma timidez que eleva o personagem. Garanto que só havia visto uma atuação sua antes na novela da Gloria Perez que está repetindo à tarde e que se trata do universo dos indianos. Sem me esforçar muito sei que ele andou abalando o mundo das fofocas de televisão na pele de um jovem que ajudava a mãe num barzinho de periferia do Rio de Janeiro. Lembro mais de uma personagem do seu núcleo que acabou se tornando um dos grandes sucessos da talentosa Dira Paes que viveu uma personagem ninfomaníaca e que elevou aos primeiros números das paradas de sucesso uma música besta que tinha como refrão: “você não vale nada, mas eu gosto de você!”.
    Texto, figurino e Direção: Marcelo Pedreira

    Rafael Vieira

    Rio de Janeiro, 16 de abril de 2016
  3. Felicidade pessoal, social e planetária

    Felicidade é tema e dilema. É corrente e recorrente na vida da gente. É desejo, sonho, busca. Na verdade, a única razão da existência. As religiões têm sinônimos bacanas, mas no fim, é sempre a boa e velha felicidade que interessa a quase todo mundo. Frei Betto, Leonardo Boff e Mario Sergio Cortella são, reconhecidamente, um trio de pensadores acima de qualquer suspeita para quem aprecia Teologia, Socialismo e Filosofia. Eles escreveram três textos sobre o assunto - sem se consultarem mutuamente - e o resultado é de uma harmonia rara. Um retrato bastante rico da felicidade. Frei Betto, como sempre, alerta para a necessária dimensão social da felicidade. Boff, como era de se esperar, trata de algo como uma “felicidade cósmica” e Cortella se detém sobre o tempo da felicidade, além de acrescentar elementos fantásticos como a partilha, a abundância e a gratidão. O leitor não tem do que reclamar. E é bom advertir: não é um livro de autoajuda.

    Sentido de vida e amizade

    Gosto demais do modo simples que Frei Betto assume ao sintetizar que a felicidade se mantém firme e presente na vida da gente sustentada por duas colunas: o sentido que atribuímos à nossa existência e as amizades que fazemos nesse percurso. Fica claro. Lembrei-me do ditado que confirma o fato de que qualquer caminho serve para quem não sabe onde quer chegar. O sentido que damos ao nosso cotidiano em vista de algo maior garante a possibilidade da irrupção da felicidade. E, nesse constante definir e redefinir, consolidar e corrigir o sentido que damos à vida é inevitável olhar à nossa volta. Gente feliz é gente comprometida consigo, com os outros, com o mundo e com as realidades do Mistério. As considerações sociais e os perigos do capitalismo “vencedor” apresentadas por Frei Betto são de grande valia. E as amizades? Irrenunciáveis. Não dá para ser feliz sem amigos.

    Felicidade da Mãe Terra

    Leonardo Boff faz longas reflexões sobre a importância da felicidade e infelicidade da Mãe Terra. Um organismo vivo. Dela saímos e para ela voltamos. Nela nos movemos. Se insistirmos em ficar alheios ao que ocorre com a Gaia, Mãe Terra, a felicidade não nos alcançará. Nós somos a parte criativa, inteligente e pensante da Terra. A nós cabe a tarefa de reconhecer a necessidade de proteção e de harmonia com os biomas, a biodiversidade e os ecossistemas. Boff se refere a algumas passagens da Encíclica do Papa Francisco, Laudato Si, para ilustrar a importância de uma nova consciência ecológica. Vale a pena prestar a atenção numa das menções que ele faz sobre os limites da chamada literatura de autoajuda quando trata do tema da felicidade. Na reflexão, há também números atuais e interessantes sobre a situação atual do planeta. É o texto mais longo e, diria, mais denso dos três apresentados no livro.

    Momentos felizes

    Mario Sergio Cortella mantém sua verve de conferencista. Dá a nítida sensação de ouvi-lo enquanto se lê o texto. E, como ele costuma falar à TV, sua reflexão está entrecortada de exemplos pessoais, citações objetivas e expressões quase bombásticas. O que se repete, no entanto, é que a felicidade é realidade fugidia. Ela nos escapa, sempre. Gosto do modo como ele conclui a partilha de experiências quando diz: “isso me felicita”. Não tenho o costume de associar o verbo ao substantivo. É bacana compreender a felicidade como um movimento parecido, como diz Cortella, com as ondas do mar. Um ir e vir que se renova que faz com que a gente esteja sempre pronto para a surpresa do novo cenário. Ele também insiste na importância da partilha, da abundância e da gratidão. O texto no qual ele identifica a expressão da felicidade no Evangelho é de São João: “Eu vim para que todos tenham vida e a tenham em plenitude” Jo 10,10).

    Rafael Vieira
    Aparecida, 11.04.2016

  4. SPOTLIGH - SEGREDOS REVELADOS
    Filme (2015) Direção: Thomas McCarthy

    O ganhador do Oscar na categoria de “melhor filme” em 2016 é uma obra panfletária, apesar de densa, bem feita e mais compreensível para jornalistas porque destrincha a produção de uma reportagem investigativa de grande poder de fogo. Há quem tenha dificuldades para acompanhar a trama, ainda que a comentarista da Rede Globo, a atriz Glória Pires, tenha dito na entrega dos prêmios da Academia de Ciências Cinematográficas de Hollywood que o filme é acessível. Não estou muito convencido a respeito disso. O próprio assunto principal do filme não fica tão claro nos primeiros momentos da história e o ponto de vista é sempre o da redação do “The Boston Globe”. O cotidiano mostrado é o dos jornalistas da equipe que faz matérias que demandam mais apuração de temas quentes. O expectador se dá conta de que se trata  de pedofilia entre o clero católico somente depois de uma boa dose de paciência e atenção. Isso significa que mesmo um filme excepcional tendo o seu tema tratado a partir da lógica jornalística pode não ter um leadmuito claro.

    Na verdade, o tema do filme é delicado. E, baseado numa história real, conta a difícil escalada para se chegar a uma verdade escondida na Arquidiocese de Boston, no estado de Massachusetts, nos Estados Unidos: a pedofilia praticada por vários padres. A partir da explosão de uma série de reportagens – premiada pelo “Pulitzer”, maior prêmio de jornalismo dos Estados Unidos -  teve início um grave capítulo na história da Igreja Católica no mundo inteiro, em 2002. Vários outros jornais fizeram grandes matérias sobre o assunto e com a criação de uma verdadeira “indústria” de causas na Justiça, passaram ser conhecidos praticantes do mesmo crime em muitas partes do mundo. A massificação do tema chegou ao ponto de colocar a pedofilia e os homens de boa vontade que se dedicam ao sacerdócio católico num cerco injusto, cruel e desumano quando joga sobre de todos uma terrível capa de suspeita por causa dos crimes de alguns padres.

    Eu discordo de quem acha o filme apenas técnico. Eu o considero panfletário, não obstante sua explícita seriedade. E nem penso na necessária, heroica e merecedora de aplausos denúncia sobre a pedofilia. Nesse aspecto o filme é corretíssimo. O que me impressionou, particularmente, é que o roteirista não fez uma história para que o expectador saiba de sua denúncia, mas para que tenha repugnância da Igreja. Ao terminar de ver o filme você não apenas sai com pavor de que pessoas que merecem tanta confiança, como os padres, sejam capazes de abusar de crianças. Você sai da sala com raiva da Igreja. A figura real do cardeal Bernard Law, arcebispo de Boston na época, colocado no início e no final do filme é a prova de que a obra pretende despertar um asco pela Igreja e não pelos crimes que ocorreram em seus domínios. Parece dizer: esse é um bandido que foi premiado pela Igreja. A realidade não chega nem perto disso. O drama pessoal do repórter interpretado por Mark Ruffalo também evidencia esse tipo de propaganda. Ele não se revolta contra a infidelidade de alguns padres criminosos, mas encerra, com dor, sua hipotética volta ao seio da Igreja.


    Além de Ruffalo, o filme conta com um elenco espetacular: Michael Keaton, Liev Schreiber, Rachel McAdams, John Slattery e Brian d'Arcy James. Esse fato, de atores extraordinários terem participado do trabalho, imprime mais verdade a uma obra de cinema que trata da vida real. Ninguém duvidaria aqui no Brasil de uma personagem magistralmente interpretada por Fernanda Montenegro. E todos os atores de “Spotlight” atuam na medida perfeita. Nem excedem na exuberância, nem ficam aquém do brilho próprio de seus personagens. Aliás, há comedimento, sobriedade, determinação. Posturas que se podem ver nas redações sérias de veículos de comunicação que se comprometem com a verdade. As referências feitas à Igreja falham exatamente por causa de um elemento indispensável no jornalismo: a maior imparcialidade possível. No filme, as vítimas são apresentadas. E o lado da Igreja está representado apenas por quem, de algum modo, está relacionado com o crime investigado. Daí, fico pensando se a intenção é despertar para uma imagem da Igreja, seria necessário que ter a representação, mesmo queen passant, de que dentro dessa instituição bimilenar há gente honesta, direita, defensora e  religiosamente cuidadosa com as crianças. A maioria esmagadora, alíás.

    Rafael Vieira
    Brasília, 29.02.2016
  5. Comentário
    TUDO SOBRE NOSSA VIDA SEXUAL
    Comédia escrita por Bernardo Felinto com o autor, Fabianna Kami e Vítor Miguel.
    Teatro dos Bancários (SQS 315), Brasília, 12.02.2016.

    O relacionamento humano é, definitivamente, o mais fértil dos temas. Mesmo com um roteiro muito frágil contendo meia dúzia de frases daquelas que tanto ama a Martha Medeiros e umas piadinhas bem manjadas pode-se chegar a um sucesso no teatro. Esse é o caso do espetáculo que tem lotado sessões da última temporada de verão, em Brasília. Na plateia, casais de várias idades e estilos: pré-adolescentes com cabelos coloridos, gordinhos grudados em mulheres que fazem a linha femme fatale usando calças super justas em tons próximas da cor da pele, senhores e suas senhoras e, claro, os indefectíveis rapazes bem jovens de barba e suas partners platinadas. Pouquíssimas pessoas desacompanhadas. Era quase constrangedor. O olhar dos casais para solteiros, duplas masculinas ou femininas quase traduziam a pergunta: “o que você está fazendo aqui?”.  Sem problemas. Não se pode esquecer que levando um título com insinuação sexual, qualquer peça está condenada a atrair muita gente e a promover um clima de “acerto de contas” no saguão de espera, afinal, a expressão “nossa vida” é sugestiva para todo mundo.

    Quando se trata de encontrar no universo do relacionamento humano as situações mais corriqueiras da vida de um casal de namorados que dorme junto há três anos, então, os 80 minutos do espetáculo tornam-se pouco tempo para se promover uma árdua busca de risadas. Ainda assim, o texto não flui com a leveza muito comum ao gênero. Emolduradas por duas pretensas grandes lições de moral sobre o que possivelmente seria o amor, a peça não diz absolutamente nada a respeito. A atriz abre e fecha a cena com um discurso meio incompreensível e cheio de solenidade. Parece que ela quer dizer isso, mas diz aquilo ou não diz nada. Muitas cenas “atolam” numa repetição inútil. Os atores mudam de marcação de modo quase a incomodar. O público só parece ter ficado verdadeiramente à vontade quando se passou a impressão de que os protagonistas começaram a improvisar. Os clichês pululam, aquelas perguntas imbecis do tipo “com quantas pessoas você transou” e o “apaga-acende” da luz para sugerir tentativas de fazer sexo faz o expectador se entortar e desentortar na cadeira muitas vezes. O curioso é que, mesmo considerando que as fotografias da divulgação da peça mostrem os atores seminus, eles não tiram a roupa durante a peça. É só para garantir plateia. Atravessam a história de modo comportadíssimo: ela com um vestido amarelo e ele com calça preta, camisa branca e suspensórios.

    Há tiradas engraçadas, claro. Previsíveis, no entanto. O casal Isabel e Pedro chega de uma festa elegante e, antes de ir dormir, ainda com suas roupas chiques, começam a fazer cobranças. O rapaz toma whisky e a menina fica às voltas com suas tentativas de convencê-lo de que é hora de transar. Convenhamos: dá para rir quando dois jovens com seus 30 anos estão dizendo que fazem sexo uma vez por semana? A conversa parece meio fora de lugar. Ou ainda: você iria cair na gargalhada ao ouvir o rapaz e a moça fazendo contas silenciosas sobre o número de parceiros sexuais que tiveram e repetindo esses números à exaustão. Por favor. A peça ainda explora um bocado de lugares-comuns nas relações homem e mulher. E, claro, não deixa de fazer menção à homossexualidade servindo de gancho para uma tirada que a garota faz para entender a razão das dificuldades colocadas pelo rapaz para ficar na cama com ela. O momento de aparente clímax sexual ficou engraçado por causa da extraordinária insatisfação da personagem. A atriz deu um show de interpretação.


    Uma única ruptura do diálogo entre o casal ocorre quando entra, pelo meio da plateia fazendo malabarismos entre os casais, um stripper com  chicotinho de sadomasoquista. O ator faz várias acrobacias antes de chegar ao centro do palco. E durante sua permanência na cena, realiza movimentos acelerados. O som prejudicou a compreensão da importância desse corte na peça. Mas, de toda maneira, evitou a saturação da conversa que não parecia avançar. A “lição” de conclusão pareceu sugerir que é bom estar junto quando se está junto de verdade e quando a relação não está boa, existe algo muito simples a fazer: terminar. Parece até que é fácil assim, né?! O que serviu de palavra de ordem final, antes de apagar as luzes, foi a frase magistral: o que importa é ser feliz! O público aplaudiu. Vieram os patrocinadores, os atores pareciam cansados. Eles defenderam o belo ofício que abraçaram. O teatro vale por si. Nunca me arrependo de ir ao teatro. Apesar de ser uma arte autodestrutiva como dizia meu saudoso amigo Caíque Ferreira, é uma arte linda em todas as suas manifestações. Viva o teatro! Parabéns Bernardo Felinto!.
    Rafael Vieira
    Brasília, 14.02.2016